A Vida na Cidade

Como a gasolina se tornou uma questão sistêmica no país

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  • 13 de agosto de 2018

E POR QUE A DISCUSSÃO É MUITO MAIS PROFUNDA DO QUE SE FOI “GREVE OU LOCAUTE”

Em parceria com: Nicolau Ballesté e a suntech Mitra

Fritjof Capra disse em sua obra, O Ponto de Mutação, em 1982, que vários fenômenos atuais, como o patriarcalismo, o próprio capitalismo e as crises de poluição, desmatamento e a escassez de recursos são resultados de um tipo de pensamento reducionista e cartesiano que diz que o todo é igual à soma das partes.

O PENSAMENTO CARTESIANO

Pense, por exemplo, em como você explicaria para alguém a sua rotina para ir ao trabalho todos os dias: “eu acordo, tomo um banho, visto a minha roupa, tomo um café da manhã, escovo os dentes, arrumo minha bolsa, saio de casa, pego meu meio de transporte e chego no trabalho”.

Logo, se você juntar cada um desses pequenos eventos matinais, você tem o processo completo, desde o momento em que você se levanta, até o momento da chegada no trabalho, certo? Talvez não seja bem assim.

Temos uma tendência em sermos muito objetivos e, muitas vezes, simplistas. Sabemos usar as coisas — desde um martelo, passando por um computador, até uma conta bancária — do jeito que são, mas raramente questionamos o porquê são desta maneira

GASOLINA: UMA DEPENDÊNCIA SISTÊMICA

Quando vemos as últimas notícias sobre a greve dos caminhoneiros, intervenções das forças armadas, políticas econômicas da Petrobrás, impostos duvidosos e supermercados saqueados, nós nos sentimos perdidos. Parece que o país virou de cabeça para baixo na última semana.

A questão é que a situação é mais complexa do que uma compilação de todos esses fatos. O buraco é bem mais embaixo e, antes de discutir se foi greve ou locaute, devíamos pensar — dentre outras coisas — sobre o grau de dependência que temos de combustíveis fósseis.

A grosso modo, o petróleo, o carvão e outros são soluções objetivas e eficientes para um problema muito específico: gerar energia mecânica, a partir de sua queima. Por essa propriedade, eles foram as bases da industrialização moderna.

E aí, voltamos ao pensamento reducionista e cartesiano: você tem um problema, você encontra uma solução específica para ele, desconsidera todo o resto, todos os outros aspectos do meio no qual o problema se encontra.

Então, no caso dos combustíveis fósseis, ignoramos as poluições do ar e sonora, o alto custo e a lógica da escassez em que se baseia , ou seja, poucas pessoas detém o controle enquanto muitas outras são dependentes dela.

LUZES NO FIM DO TÚNEL

O pensamento cartesiano, porém, não é o único no mercado. Existem muitos movimentos que olham para sistemas interdependentes, entendendo que o meio ambiente, o contexto sócio-cultural, as invenções humanas e a tecnologia são cores de um mesmo quadro.

Essa visão sistêmica ajuda a entender que energia não se resume a fazer motores girarem ou lâmpadas acenderem. Também ajuda a entender que o fato de termos energia — elétrica ou mecânica — em nosso cotidiano, tem a ver com criar fluxos, a partir da natureza, que favoreçam as atividades humanas, sem degradar o contexto que nos cerca. E a boa notícia é que essa visão existe há algum tempo, sendo possível ver desdobramentos dela pelo mundo inteiro. Isso explica a ascensão das energias renováveis, principalmente da solar, nos últimos anos.

O preço da energia fotovoltaica vem caindo vertiginosamente, os veículos elétricos começaram a bombar em mercados internacionais, empresas gigantes focadas na produção limpa de energia elétrica, a Rio+20 e o Acordo de Paris. Além de leis que obrigam as casas a terem energia solar, startups com ideias inovadoras quanto à energia surgindo pelo mundo todo. E a lista só cresce. Isso explica a ascensão das energias renováveis, principalmente da solar, nos últimos anos.

O PODER DO QUESTIONAMENTO

Pode ser que construir uma fazenda solar e se tornar a origem de uma revolução pareça um pouco distante de nossas realidades. Talvez, você até pense que instalar painéis solares em casa também seja algo do futuro. E, faz sentido, afinal, energia é uma das malhas de infraestrutura que interliga todos os setores da nossa vida, ou seja, é super complexo.

Entretanto, podemos começar pelas coisas simples, pelo “trabalho de formiguinha”, pela tomada de consciência dos processos do nosso dia a dia. É através de pequenas ações — aparentemente triviais— que podemos passar mensagens muito fortes ,  que realizamos micro-revoluções capazes de transformar, gradualmente, os contextos em que habitamos. Porque, afinal, não existe evento nem sistema isolado.

Questionando processos desde “como a energia chega até minha casa?”; até “como funciona meu smartphone?”; ou “por que o meu carro se move a gasolina?”, podemos encontrar novas formas de nos relacionarmos com o que nos cerca.

Talvez, a gente comece a perceber que a gasolina e o diesel não são a base dos nossos meios de locomoção por serem a única alternativa. Talvez haja outras escolhas em relação a nossa mobilidade diária. Talvez, a gente comece a perceber que a eletricidade das nossas casas passa por um processo, pelo qual possamos, gradualmente, assumir a responsabilidade.

E que, mesmo o trajeto até o trabalho é muito mais do que a soma de todas aquelas etapas que eu mencionei mais cedo, mas que ele é feito do processo em si, ele é o caminho, é a paisagem, e é o “bom dia” do vizinho. O caminho é toda a experiência.

Então, questionando e tomando consciência dos processos que nos cercam — e até mesmo daqueles que estão dentro da gente — começamos, aos poucos, a caminhar em direção à autonomia.

 

Nicolau Ballesté é comunicador por formação, tem 3 anos de experiência com tecnologia e programação e é co-fundador da MITRA, uma suntech que tem como propósito mudar matrizes energéticas e transformar contextos humanos.

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